Série Chernobyl e a polêmica Energia Nuclear

por Prof. André Astro 05 ago

Era 1:23 da manhã do dia 26 de abril de 1986, quando o reator quatro da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, antes parte da União Soviética, explodiu. Enquanto o fogo se espalhava pelo edifício quatro e para outros prédios adjacentes, detritos radioativos dos componentes do reator eram lançados no ar. Fumaça tóxica e poeira se espalhavam com o vento, levando consigo produtos de fissão nuclear.

Esse, que foi considerado o maior acidente nuclear da história da humanidade, foi tema da aclamada série produzida pela HBO chamada de Chernobyl. Se você ainda não assistiu a série, não se preocupe, não haverá spoilers nesse texto, mas fica a dica: você deve assistir!

Chernobyl tem cinco episódios, e recebeu nota de 9,7 no IMDB, maior site do mundo que cataloga informações sobre filmes e séries, ultrapassando inclusive séries mais aclamadas como Game of Thrones. A HBO usa com maestria as cinco horas e trinta e quatro minutos de série, para contar em detalhes, esse terrível acidente nuclear e reacender a discussão: A energia nuclear vale a pena? E as pessoas que vivem próximo às usinas como de Angra 1 e Angra 2, correm perigo?

Como Funciona uma usina nuclear?

Aproximadamente 11% da “produção” de energia mundial é feita através de 450 reatores nucleares espalhados pelo mundo. Basicamente, assim como a hidroelétrica, eólica, termoelétrica, entre outras formas de “produção” de energia, o objetivo final é movimentar uma turbina para fazer bobinas terem movimento em relação a poderosos imãs. Na usina hidroelétrica a força da água faz as turbinas girarem. Já na eólica são os ventos os responsáveis, e nas termoelétricas, vapor de água.

A usina nuclear também utiliza vapor de água como agente para mover as turbinas, mas o processo para vaporizar a água é diferente da termoelétrica. Enquanto a termoelétrica queima carvão, por exemplo, a usina nuclear usa a fissão nuclear de elementos químicos, como o Urânio, por exemplo. A fissão é um processo em que se bombardeia com um nêutron, o núcleo de um elemento radioativo. Essa colisão quebra o núcleo do átomo, formando dois elementos químicos diferentes do inicial e libera uma grande quantidade de energia. Nesse processo outros nêutrons são liberados quebrando outros núcleos atômicos, formando o que se chama de reação em cadeia.

A reserva de urânio no Brasil é significativa, o que leva o país a ocupar a sétima posição no ranking mundial. Porém na natureza existe mais o isótopo 238, que é mais difícil de sofrer fissão que o isótopo 235. Por isso, antes de ir para o reator, faz-se o processo de enriquecimento, em que o Urânio encontrado na natureza precisa ser industrialmente tratado para que a proporção do isótopo 235 em uma mostra seja ao menos 3,2% da quantidade total da amostra.

Imagem: Fissão nuclear do Uranio-235. O combustível mais usado nos reatores atualmente é o MOX, mistura de óxido de urânio e plutônio.   

O grande problema é que esses elementos, utilizados como combustível nos reatores nucleares, emitem uma radiação invisível de alta penetração extremamente perigosa e nociva não apenas a espécie humana mas a toda natureza. 

Como Foi o Acidente? 

Charkov: “Por que se preocupar com algo que não vai acontecer? 

Legasov: “Por que se preocupar com algo que não vai acontecer? Oh, isso é perfeito, eles deveriam colocar isso no nosso dinheiro 

Essa é uma das frases mais interessantes da série. Nas primeiras horas que sucederam a explosão, ninguém acreditava que o reator RBMK (reator de canal de alta potência), um dos mais sofisticados da época, pudesse explodir. A negligência e o contexto sociopolítico da época (em plena Guerra Fria) foram cruciais para que a tragédia se tornasse ainda maior do que deveria.  

No dia 26 de abril de 1986, o reator número quatro seria desligado para verificações nos sistemas de segurança diante de possíveis quedas de energia. Há controvérsias entre os especialistas quanto ao motivo da explosão, mas quando o reator foi desligado ele se encontrava em uma condição extremamente instável. O calor provocado pelo superaquecimento do núcleo provocou uma explosão capaz de mover parcialmente a placa de cobertura do reator de 1000 toneladas. Três segundos depois uma segunda explosão aconteceu liberando produto da fissão a até 1Km na atmosfera além de grafite quente. Elementos mais pesados se depositaram ao redor do prédio, enquanto elementos mais leves, poeira radioativa, foram levados pelo vento e se espalharam pela Europa. Ao menos trinta pessoas morreram como consequências da explosão e da radiação liberada, e um número não definido de pessoas, animais e plantas sofreriam ao longo dos anos pela exposição a radiação. A cidade de Pripyat, que ficava a 20 km da usina foi evacuada e hoje é uma cidade fantasma, turística por apresentar baixos níveis de radiação, porém inadequada para vida.  

Por que usamos energia nuclear? 

O acidente na usina de Chernobil não foi o único grande desastre nuclear dessa magnitude na nossa história recente. Em 2011, a usina nuclear de Fukushima foi atingida por um tsnunami causado por um maremoto de magnitude 8,7 pontos na Escala Richter. Mais de três mil pessoas morreram como consequência imediata da tragédia. Ante o exposto, visto todas as tragédias que já aconteceram, fica a pergunta: por que ainda utilizamos esse tipo de usina para “produzir” energia? 

O caso é, a fissão de um único núcleo de Urânio libera até 200MeV (mega eletron-volts) de energia. A título de comparação, em uma usina termoelétrica, 500g de carvão é capaz de gerar 1KWh de energia. Já a mesma quantidade de urânio, em uma usina nuclear, é capaz de gerar 3 milhões de KWh.  

A energia produzida em uma usina nuclear é uma energia limpa, não há liberação significativa de gases estufa para atmosfera. É uma usina que não depende do clima para funcionar, como as usinas hidroelétricas e eólicas por exemplo, a única necessidade é que se tenha por perto um reservatório de água para resfriamento dos reatores. No caso de Angra 1 e Angra 2 é utilizado a água do mar para esse objetivo. A radiação em nenhum momento entra em contato com a água do mar. 

Aliado a isso, a demanda por energia no mundo cresce substancialmente. A ONU estima que a população mundial crescerá de 7,6 bilhões de pessoas, para 9,8 bilhões até 2050. A previsão é que dois terços dessas pessoas viverão em áreas urbanas, aumentando ainda mais a demanda. 

A polêmica ante a energia nuclear vem justamente dessa controvérsia. A eficiência da usina nuclear aliada a crescente demanda, o fato de não emitir gases estufa para a atmosfera e a independência de fatores externos para geração da energia, batem de frente com a possibilidade de acidentes com consequências desastrosas, o fato desse tipo de usina produzir um lixo radioativo, não existindo ainda uma maneira eficiente de descarte ou reciclagem, além de não ser uma fonte de energia renovável.  

Embora a construção de uma usina nuclear seja um projeto caro, até pelas exigências quanto à segurança, fatos como aconteceram no Japão, um país tecnologicamente desenvolvido, mostra que não existe nada que seja 100% seguro.      

Por isso, alguns países como Alemanha, Suíça e o próprio Japão sinalizaram como meta abandonar progressivamente as usinas nucleares, enquanto outros investem para aumentar o número. 

Desmistificando alguns conceitos 

Em se tratando de radiação, é interessante notar que a parte que causa preocupação é a chamada radiação ionizante, ou seja, o material que é emitido de átomos radioativos capaz de arrancar elétrons dos átomos e modificar inclusive o núcleo das células do nosso corpo.  Nesse sentido, dois pontos são importantes de explorar. O primeiro é que estamos expostos a esse tipo de radiação todos os dias. O problema não é a exposição, mas a quantidade de radiação. 

As bananas, por exemplo, são ricas em potássio, importante elemento para o bom funcionamento do nosso corpo. Porém parte desse potássio, é o isótopo potássio 40, que é naturalmente radioativo. Utiliza-se a unidade Sievert (Sv) para medir os efeitos biológicos da radiação. Ao comer uma banana você está ingerindo algo em torno de 0,1 microsievert. Segundo dados da Agência de proteção Ambiental dos Estados Unidos, 50 milisieverts já começaria a ser prejudicial para o ser humano. Seria o equivalente a comer 500.000 bananas. Seja viajando de avião, ou fazendo um raio x, as pessoas s07ão constantemente expostas a radiação ionizante natural. Apenas para título de comparação, hoje, mais de 30 anos após o acidente de Chernobil, visitando o local onde estão empilhadas as roupas dos bombeiros que combateram o fogo causado pelas explosões, a radiação emitida é de 1500 microsieverts por hora. 

O segundo ponto é que a intensidade das radiações emitidas pelo núcleo diminui consideravelmente com a distância da fonte emissora. Então, a radiação emitida por núcleos radioativos em uma usina nuclear não deve ser de todo uma preocupação. O problema se encontra na possível explosão de um reator. A explosão pode lançar no ar e espalhar por centenas de quilômetros os átomos radioativos, esses átomos podem ser respirados ou ingeridos pelas pessoas, sendo a radiação por eles emitida diretamente absorvida nos tecidos humanos.  

Conclusão 

A série Chernobyl, além de ser extremamente informativa, reacende a discussão sobre os perigos das usinas nucleares mesmo diante de toda a sua eficiência. Cabe a cada um de nós, cidadãos do mundo, buscarmos conhecimento suficiente para embasar nossas opiniões e sempre pensar sobre as possíveis consequências, sejam elas boas ou ruins, daquilo que defendemos. 

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